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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Tabacaria - Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A moça e o pasteleiro - Autoria própria

- O que você quer?
Um pastel e uma cerveja?
Um beijo ou um poema?
Um ensejo e um tema?
Um gracejo ou um problema?
Meu desejo ou um cinema?
Uma declaração ou um dilema?
Uma paixão ou um tesão?
Um relance e uma transa, ou
Um romance e um transe?

A moça surpresa
As perguntas imprevistas...
A dúvida é mais obscena que a nudez

- Não sei o que quero
Se comer ou beber
Desistir ou prosseguir
Ceder e relaxar
Negar e lamentar
Querer e não tentar ou
Querer e arriscar
Dentre tantas opções
Prefiro um pastel

sábado, 28 de janeiro de 2012

Soneto XXXIII – Antônio Ferreira

Eu vi em vossos olhos novo lume,
qu’apartando dos meus a névoa escura,
viram outra escondida formosura,
fora da sorte, e do geral costume.

Em vão seu arco Amor armar presume,
que esse alto esp´rito, essa constância dura,
a outro mais alto Amor guarda a fé pura,
em mais divino fogo se consume.

Nesta desconfiança inda s’acende
em mim um vão desejo de aprazer-vos,
e para isso só busco engenho, e arte.

Senhora, que al fará quem chega a ver-vos,
(já que o desejo a mais se não estende)
que dar-vos de su’alma toda parte?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Esfinge - Autoria própria

Já passei da fase
E da frase
Óbvia de quem vive
Soluçando soluções

Já me atiraram provas
Frascos e afrontas
E respostas prontas
Contra a minha
Caosmologia

Todo o logos
E todo lugar
Ao longe
Só aponta
O fel
Muito distante da
Colmeia do melhor mel

Queria viver
Dentro duma
Concha de sossegos
Sem precisar de
Antídotos para
Arrependimentos

Quero esquecer
Pedra a pedra
As dores do que aprendi

Quero refazer
Pétala a pétala
As cores do que desaprendi

Como quem cose
ponto a ponto
O próprio vestuário

Como quem cospe
grão a grão
A abóboda de todo um cosmo

Renascer
Como a uva reencarnada em
Vinho
E embriaguez

Mas só há
Só vejo
A conformação
silêncio a silêncio
O lento desabrochar
duma
esfinge

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Meu ser evaporei na lida insana - Bocage

Meu ser evaporei na lida insana

Do tropel de paixões, que me arrastava;

Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava

Em mim quase imortal a essência humana:



De que inúmeros sóis a mente ufana

Existência falaz me não dourava!

Mas eis sucumbe Natureza escrava

Ao mal, que a vida em sua origem dana.



Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!

Esta alma, que sedenta em si não coube,

No abismo vos sumiu dos desenganos:



Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube

Ganhe um momento o que perderam anos,

Saiba morrer o que viver não soube.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O galo e as estrelas - Autoria própria

Há mais noite no agreste que em cidades
Próxima está a lonjura das estrelas
Na urbe, as estrelas são frivolidades
Pode-se no sertão de fato vê-las

Perto do mato vivem as verdades
Longe dos homens o homem sai das celas
Há na luz das estrelas potestades
Todo brilho do escuro é forte nelas

Acorda galo! Aclara o breu no grito
Acolhe o dia no acorde do teu canto
Acode a aurora desse outro amanhã

Teu fardo está na glória desse rito
Só o teu canto vê o mais íntimo espanto
A anatomia secreta da manhã

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Floriram por engano as rosas bravas - Camilo Pessanha

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze --- quanta flor! --- do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Urbe - Autoria própria

Na urbe, uma nave segue sem ter prumo
Há o pranto pelo prato que se escassa
O acento falto em frágil argamassa
E a fome que se espanta pelo fumo

Selva de homens, sua seiva é o sangue. Sumo
Retrato da vileza das suas praças
Na passarela, raças em desgraça
Congraçam-se na ausência de algum rumo

Trabalha a criança num sinal impuro
Em suas mãos, a metástase da flor
Infância abandonada em pleno alvor

O sorriso da vela infecta o escuro
Toda a fé que se expecta nesse instante
Busca a fé que se aspecta hoje distante

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Estátua - Camilo Pessanha

Cansei-me de tentar o teu segredo:

No teu olhar sem cor, --- frio escalpelo,

O meu olhar quebrei, a debatê-lo,

Como a onda na crista dum rochedo.



Segredo dessa alma e meu degredo

E minha obsessão! Para bebê-lo

Fui teu lábio oscular, num pesadelo,

Por noites de pavor, cheio de medo.



E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre o mármore correcto

Desse entreaberto lábio gelado...



Desse lábio de mármore, discreto,

Severo como um túmulo fechado,

Sereno como um pélago quieto.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Último soneto - Álvares de Azevedo

Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!



Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!



O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.



Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Desfrute e glória - autoria própria

Se após a renhida luta
Ganho o almejado desfrute
Ressinto o fim da disputa
Sucumbo ainda que relute

Finda a dor, chegada à glória
O conseguido condói-me
Vejo esse oco de vitória
O nada no eco corrói-me

Mas a glória que não alcanço
O prêmio que não desfruto
Traz-me o desfrute do lanço
E faz-me distar do luto

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Vagabundo - Álvares de Azevedo

Eat, drink, and love; what can the rest avail us?
BYRON. Don Juan.





Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!



Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.



Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando a noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.



Namoro e sou feliz nos seus amores
Sou garboso e rapaz... Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...



Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!...



Tenho meu por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.



O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.



Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.



Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio,
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo a Nossa Senhora e sou vadio!



Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão se unir à minha,
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Consciência Cósmica - João Guimarães Rosa

Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Luar - João Guimarães Rosa

De brejo em brejo,
os sapos avisam:
--A lua surgiu!...

No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.

A lua madura
Rola,desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas...
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da via-láctea?...

Desliza solta...

Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Árias e Canções - Alphonsus de Guimaraens

A suave castelã das horas mortas
Assoma à torre do castelo. As portas,

Que o rubro ocaso em onda ensangüentara,
Brilham do luar à luz celeste e clara.

Como em órbitas de fatias caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,

Os astros morrem pelo céu pressago...
São como círios a tombar num lago.

E o céu, diante de mim, todo escurece...
E eu que nem sei de cor uma só prece!

Pobre alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Paternidade - Autoria própria

Pouco já resta, logo vem meu anjinho
Eu vejo pronto o berço onde estaria
Corpo indefeso, rosto no soninho
Flor adornada, feliz gritaria!

Visão que novo mundo descortina
não são verdes, esta cor é castanho
a mágica lembrança que fascina
volto a morar no castelo de antanho

Ressoa o sino da Capela Sistina
A alegria se expandindo com ardor
Deste ouro que não se pesa por quilo

A imaginação no transe atina
É médico? Quem sabe jogador?
O que será meu querido pupilo?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Soneto - Alphonsus de Guimaraens

Encontrei-te. Era o mês... Que importa o mês? Agosto,
Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março,
Brilhasse o luar que importa? ou fosse o sol já posto,
No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.

Que saudades de amor na aurora do teu rosto!
Que horizonte de fé, no olhar tranqüilo e garço!
Nunca mais me lembrei se era no mês de agosto,
Setembro, outubro, abril, maio, janeiro, ou março.

Encontrei-te. Depois... depois tudo se some
Desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e poeira.
Era o dia... Que importa o dia, um simples nome?

Ou sábado sem luz, domingo sem conforto,
Segunda, terça ou quarta, ou quinta ou sexta-feira,
Brilhasse o sol que importa? ou fosse o luar já morto?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O vento - Autoria própria

Uiva o vento, a janela se abre
E passa o vento, que traz o tempo

É no uivo que se escuta
O que apenas se imagina

De onde vem todo esse vento
O que foi que viu esta brisa?

Que mares ela conduziu?
Quantos grãos de areia desencaminhou?

A brisa segue com o vento
Num insolúvel matrimônio

Uiva um, geme a outra
Que vem solta, ninguém prende

E no vento veio a vida
Vem ventania e tempestade

Vem o verão, vem o inverno
Vem a gaivota, sem esforço

Passa o vento no cata-vento
Lambe o moinho no engenho

E ainda que, a destempo,
O vento traga a nuvem, traga a chuva
A água que vem com o vento
Alimenta o sertanejo
Molhando a seca
Não engorda mais
A fome

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Os dous horizontes - Machado de Assis

Dous horizontes fecham nossa vida:
Um horizonte – a saudade
De que não há de voltar;
Outro horizonte, - a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, - sempre escuro, -
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais;
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal e na hora presente
O horizonte do passado.

Que ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
A alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu – tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas homem? – Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

Dous horizontes fecham a nossa vida.